É difícil, muito difícil. Quero sair de casa, mas as coisas não estão fáceis. Por um lado, isso torna tudo mais interessante, por outro, dou por mim a respirar com dificuldade, e a chorar lágrimas de raiva. Isto parece mais saído de um filme trágico-cómico, mas é mesmo assim.
Os meus pais não estão contra mim, mas também não estão a favor. A verdade é que depois de uma longa conversa cibernética com a minha irmã tudo ficou mais claro. Ela saiu de casa aos 22 anos, para ir viver com o namorado. Foram viver para a margem sul, compraram uma casa espectacular e ela foi trabalhar naquela zona. E eu na minha mente só me lembrava que os meus pais a tinham ajudado em coisas que ela precisava em casa. Mas a realidade não foi bem assim. Os meus pais não gostaram nem um pouco. Primeiro, porque iam “viver” juntos e não casar; segundo, porque iam para a margem sul, e não ficavam perto deles; e terceiro, porque simplesmente, ia sair de casa. E saiu, e não olhou para trás. E a verdade é que os meus pais acabaram por ajudá-la.
E finalmente percebi que, a única coisa que tenho a fazer é enfrentar todos os meus medos: a dependência materna, o cozinhar todos – ou quase todos – os dias, o limpar a casa, e o pó, mesmo que isso me custe espirrar mil vezes, lavar a roupa, passar a ferro, e ter de fazer uma ginástica orçamental, que vai custar-me algum nervoso miudinho, e ter de prescindir de muita coisa.
A minha irmã mais nova. Ela é que me disse que me apoia, que acha bem, que devo continuar a procurar a minha casa, mas que tenho de mentalizar-me de que é uma caminhada só minha. O que vier, por acréscimo, será muito bom. Eles vão, provavelmente, continuar a ignorar o meu entusiasmo cada vez que vir uma casa, e não vão falar em ‘apoiar-me’. E se calhar fazem bem, eu é que devo estar entusiasmada, e fazer pela vida.