sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Natal sem Avó

Eu não sei se acredito em Deus mas gosto do Natal. Faz-me lembrar a minha avó, o cheiro das filhós a fritar, as farófias e até o bacalhau feito por ela, o cabrito do dia de Natal, o frio do Fundão que às vezes faz nevar. As luzes que faziam reflexo na estrada molhada, os cachecóis e os gorros, as compras de última hora com os familiares mais próximos. O cheiro do jantar, e as prendas à espera debaixo da árvore, que me fazem lembrar as noites quase em branco, e o acordar de madrugada com a minha irmã à espera de ver o Pai Natal, e poder rasgar os papéis de embrulho com violência…
Agora que não estás cá, há que manter a tradição, há que manter a alegria que ela deixou. Alguma coisa de boa herdei dela. Não sei fazer filhós, têm os segredos que ela levou com ela, aquelas rezas e aquelas coisas que ela fazia enquanto a massa estava a crescer. Eu tentei muitas vezes perceber o que ela dizia, e o que ela fazia, mas rezava baixinho, num murmúrio, num bxbxbxbxbxb seguido, intransponível e altamente eficiente, porque aquelas filhós saiam sempre bem. O cocktail perfeito para um colesterol elevado – por isso é que se calhar o meu nunca diminuiu. Depois, ela fazia uma cruz gigante na massa, com os dedos e colocava um pano por cima da massa que enchia a masseira, e deixava-a a repousar. Eram pelo menos um dia inteiro para completar o processo todo, encher a cozinha com aquele cheiro, e expulsar toda a gente para conseguir despachar-se o mais rápido possível. Levava esta data muito a sério, e gostava de ter tudo bem feito e a horas. Não se preocupava com prendas, mas gostava de dar.
Aquilo que mais me lembro dela é a boa disposição, a gargalhada, as asneiras, o sotaque cómico assim meio parecido com o Diácono Remédios, a rondar a mesa, sem se sentar enquanto toda a gente não estivesse a comer e satisfeita. A forma como falava do Sporting do meu avô, e ficava feliz se ele ficasse. Fazia-lhe todas as vontades, e gritava com os hóspedes de Lisboa (eu, a minha irmã e os meus pais) quando não tomávamos banho antes dele, para não estorvar os seus hábitos matinais.
Enfim, muito de mim foi herdado daquela senhora, que já conheci velhinha, mas que tinha uma mente tão jovem e me perguntava tantas vezes pelos meus namorados. O Natal já não a tem, mas eu tenho o Natal sem ela.

2 comentários:

  1. É uma reflexão engraçada com a excepção da última afirmação. Quem te conhece percebe a ideia, mas quem lê isto pela primeira vez julgar-te-á sádica. Sabes que o português tem certas limitações e tens de estar a pau com elas todas. É como as filhós, senão tiveres atenção pode fritar em demasia.

    Mas já sabes, qualquer ajuda em termos da lingua de Camões é só pedires com jeitinho:P

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  2. Muito nostálgico, e fez-me recordar o passado..
    Uncle....

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